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domingo, 16 de julho de 2017

Tatuagens e vida



As tatuagens não me incomodam, o meu problema é outro, até porque fica bonito, agradável e inesperado a tatuagem espreitando pelo decote nas costas.

A minha questão já vem de tempos antigos. 
Nos meus 19 anos visitei o Oriente e fiquei encantado com a China e o seu mundo tão diferente do Ocidente. Conversando com amigos, apareceu a ideia de todos guardarmos a lembrança dessa visita fazendo uma tatuagem de um dragão chinês. Depois de muitas ideias e contra-ideias sobre o local, tamanho , estilo, etc, acabou por se concordar por um pequenino dragão no pulso para ficar tapado pelo relógio.

Nos dias seguintes fiquei a pensar [... e se começasse a usar relógio de bolso?] e decidi não o fazer. Desde essa altura até hoje fiquei com o trauma do "relógio de bolso" até porque há muitos anos que deixei de usar relógio, mesmo muito antes dos telemóveis porque havia relógios por todo o lado, no carro, nas empresas, na casa e, claro, no pulso de toda a gente.

Desde essa altura  que o meu problema com as tatuagens é ficar  "preso" a ela para toda a vida. A pele pintada não me incomoda, o que me incomoda é não poder despintar.

A vida é demasiado rica e complexa para se ficar "parado" no seu fluir. Parafraseando o poeta, "cada momento que vivo é sempre um início do fim da minha vida". Ficar limitado nas possibilidades desse momento por uma decisão então considerada boa mas que se pode tornar má… irrita-me se lucidamente já a considero não imprescindível.  

Hoje penso que esta posição partiu de um filósofo que li na minha adolescência que dizia que as decisões boas são aquelas que sentimos que "noutras circunstâncias decidiremos o mesmo". Olhando para trás, para aquelas decisões que provocaram uma "cambalhota no caminho da vida" se, por muitos problemas que tenham causado, ainda hoje ainda as decidíssemos do mesmo modo é porque mereceram a pena. E uma tatuagem para a vida inteira não sinto que pertença a este tipo.

Viver é... em cada segundo decidir o futuro, do mesmo modo que escrever é em cada segundo decidir a palavra seguinte e se continua ou não a escrever. 

Deste modo, decido acabar e despeço-me com uma síntese:

Concordo com tatuagens quando facilmente as puder tirar e depois puder torná-las a pôr, pois a razão é  simples: o corpo é meu e, voluntariamente, não lhe tiro possibilidades. 

PS- Acabo de re-decidir continuar. 
Estou a chegar à conclusão que estar no café e assistir à vida que me rodeia é mais interessante e estimulante do que ver os canais e programas da TV cuja rotina é mesmo rotineira.
Inté


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