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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DECORAR ou a armadilha do estudar

Tema
Toda a gente estuda para saber, mas saber é "pensar sobre algo" e concluir. Quer isto dizer que não é uma actividade mecânica de armazenar ideias mas uma actividade criativa de estabelecer relações entre ideias e encontrar a lógica.

Estudar não é decorar... é construir lógicas. Ensinar a estudar não é ensinar truques mnemónicos é ensinar a pesquisar e construir relações.

Lendo um antigo filósofo taoista, ele dizia que [aprender não é repetir é transformar-se] e que [...o mestre deve ter a humildade de deixar o aprendente fazê-lo como pode e apenas ajudar].

Hoje, esta ideia pode não ser novidade mas a sua aceitação implica uma revolução na pedagogia (e professores), na educação (e pais), na política (e lideres), na amizade (e parceiros).

Na neurociência fala-se muito em redes neurais como a base do pensar:


ou seja, pensar é fluir nas conexões inter-neurónios, aproveitando ou criando novas ligações.

Assim, como exemplo, um pequeno problema para resolver:

O Zé vive num pequeno apartamento no 20º andar de um prédio, com uma vida difícil e dolorosa.
Ontem levantou-se e, ainda de pijama, subiu para a janela, olhou, pensou e saltou.
Caiu no chão, levantou-se e foi-se embora.
Como explicar???

Quer tentar perceber e encontrar a explicação?

Compreender o que aconteceu não é aplicar (carimbar??) ideias armazenadas no córtex ao estilo de remédios na farmácia que se podem encontrar com um braço mecânico, neste caso chamado memória. Neste funcionar, a ideia utilizada é encontrada por regras de funcionamento do braço (memória) e não por influência da questão em análise. Depois, a ideia encontrada dá ideia aplicada: 


Mas... o córtex não funciona assim. O decorar não é instrumento de compreensão é recurso para pensar, utilizar e obter compreensão.  

Estudar e aprender são processos de criar novas relações entre as ideias, transformar redes neurais existentes e fazer renascer novas conexões entre saberes. Como diz o mestre taoista, só quem aprende pode criar na própria mente essas novas conexões. Por isso, quem ensina só pode ajudar que o próprio-se-ensine-a-si-próprio.

Assim, estudar é acrescentar (mudar) a teia de relações existente entre as ideias. Quando estas novas conexões fazem sentido, nasce a alegria do "Ahhhh! Ahhhh! Experience" da Pedagogia Experiencial, ou seja, o conhecimento nasceu e instalou-se.

Esta metodologia baseia-se em perguntas de pesquisa sobre ideias existentes ou a descobrir ou a criar, seus possíveis significados e relações... e, inesperadamente, a solução torna-se óbvia.

O segredo (o "truque") é a riqueza e flexibilidade das relações que se instalam, mas decorar é a pobreza e rigidez do "carimbar". Decorar com a sua repetição mata a flexibilidade e a disponibilidade para o processo de transformação e no limite surge a rigidez, o fanatismo.


Aplicando com jovens (10/13 anos), em grupo e individual, eles vão dizendo ideias acerca do problema, ideias essas registadas aleatoriamente em mapa, nunca em listas. Nas pausas maiores, pede-se que relacionem duas (ou mais) das ideias registadas e digam qual a nova ideia surgida e a acrescentar. 

Depois, analisando todo o registo pede-se que seleccionem as mais interessantes e tirem conclusões. Normalmente, em 5 minutos, a solução acaba por surgir, muitas vezes sem consciência e sem seu reconhecimento como solução. Porém, forçando a atenção sobre ela, a solução acaba por ser reconhecida quase sempre com espanto (Ahhh!! Ahhh!!) e alegria. 

Segundo alguns autores, esta falta de reconhecimento como solução da ideia exposta é consequência de "esquizofrenia cultural" que opõe raciocínio e intuição, recusando que muitas vezes [...o raciocínio tem razões que o raciocínio desconhece...] porque [... quando se tem dúvidas sobre a escolha, não há dúvida que não é escolha...].

No já descrito problema anterior do "saltar pela janela", um possível esquema para encontrar a explicação poderia ser:


Porém, obter uma explicação é o resultado não é o objectivo da actividade. O seu objectivo operacional é criar alegria e energia para agir e o seu objectivo pedagógico é compreender como se pensou e obter técnicas para o fazer.

In brevis, o objectivo não é ter bons resultados à custa de processos (tipo competição) é ter bons processos à custa de resultados (tipo treino).
Não convém confundir aula com exame, nem treino com competição, como fazem aprendizes de formadores quer profissionais ou familiares, quer gratuitos ou pagáveis.

Não se trata de Pedagogia Experimental de base em experiências, mas Pedagogia Experiencial de base em vivências das experiências realizadas. O foco não são resultados e/ou acções realizadas mas actores e actos efectuados.
Na trilogia clássica briefing-acção-debriefing a essência não é o briefing-acção com ou sem aplausos mas é o debriefing com suas conclusões operacionais para o próprio.

A Pedagogia Experiencial não é baseada no ACTO (agir) é baseada no PÓS-acto (pensar e concluir).

Como conclusão

Estudar não é armazenar informação nos neurónios, tipo conta bancária de bits. Estudar é criar relações lógicas entre os bits, tipo teia de aranha com vários núcleos de aranhiços.

Na verdade a pesquisa lógica é uma actividade interessante. É uma espécie de ARQUEOLOGIA DE INFORMAÇÃO porque é um esforço de cavar e esgravatar "areias mentais" até descobrir onde se esconde a informação relevante. Depois é guardá-la e relacioná-la:


Por analogia, estudar é ser um "Sherlock Holmes a caçar detalhes relevantes e pensar-descobrir relações", não é ser um Tio Patinhas a amealhar, decorando e guardando o máximo de ideias na memória.

Recordando o passado, tenho consciência da sorte que tive de, pelos 12 anos de idade no Liceu D.João de Castro, ter vários anos seguidos aulas de Matemática com o Dr. Mora que me "viciou" no  seu estudo.
Não era um professor fácil, era distante, atento e exigente mas, com seus métodos "firmes", lá nos ia "embrulhando" na Matemática... e eu fiquei fan da disciplina que, na altura, me divertia mais que Palavras Cruzadas com seu misto de desafio e lógica, "...Eu contra os problemas... Grrr Grrr".

O Dr. Mora obrigava-nos a ter uma espécie de diário tipo Livro das cábulas (???), na época chamado Vademecum para profissionais anotar conclusões. De construção artesanal, com o formato de rol de merceeiro feito de papel Almaço dobrado verticalmente e lombada de fio cosido à mão. 
Nele se ia escrevendo tudo o que tínhamos que decorar, desde fórmulas a teoremas, passando por truques de cálculo rápido, axiomas, etc. Riscar livros era impensável.

Este "caderno de merceeiro" era um rol "inventário de saberes" e tinha que estar limpinho e bem feito, não se podia substituir, ou seja, obrigava a escrever pouco e bem e só o importante, umas vezes imposto pelo professor, outras por ele sugerido, outras por escolhido. Quem soubesse aquilo... passava o ano de certeza.

O interessante era que, paradoxalmente apesar de obrigar a decorar muita coisa, dizia sempre que [...a cabeça não era para decorar era para pensar, o decorado só servia para ajudar...]. 

Assim, quem respondia "papagueando" o livro tinha os seus 10/11/12 valores (a média vulgar), mas quem respondia pensando, recriando e aplicando, então... a sua nota ia por aí acima (max 15).

Na aula, ir ao quadro fazer um problema era a grande angústia de todos nós apesar de não existir avaliação, nem zanga nem prémio. O importante era pensar e encontrar o caminho mais "limpinho" para a solução. Se o fizéssemos tínhamos o direito de terminar escrevendo Q.E.D. (quod erat demonstrandum) no fim do quadro... e isso era uma honra.

Desde há mais de meio século que este hábito vive em mim. Ainda hoje quando resolvo "limpinho" um problema de lógica, penso para mim próprio... Q.E.D.

Na época, descobri que sabendo pouco e pensando muito tinha boas notas sem muito trabalho... por isso mudei de vida escolar. Comecei a aplicar o método a todas as disciplinas: fazer cábulas, decorá-las e pensar.

Lia muito e estudava pouco. Entre ler banda desenhada, livros de Sandokan e matinés nos cinemas de bairro, lá ia jogando andebol, bilhar e muito ping pong. 

Tendo os "livros de cábulas" como método de estudo rápido e sólido para exames, tornei-me habitual no Quadro de Honra e isento de propinas. Com eles, nos intervalos, 5 minutos antes dos testes, "refrescava" toda a matéria.

O meu pai comprava-me os Vademecums algures em Lisboa e eu andava sempre com um na algibeira, eram o meu computador portátil. 

Outro dia, numas arrumações familiares, encontrei um desse tempo,


Com capa de cabedal e papel quadriculado, era do tamanho de uma caixa de fósforos. Eram os meus "Diários Operacionais". 

Com páginas tão pequeninas, tinha que escrever pouco... não podia fazer resumos ou transcrições. Foi a minha sorte. Fazia reconstituições das matérias com uma lógica minha e criava esquemas, "chavetas" encadeadas e mnemónicas sobre essa matéria:



Uma cábula não era uma cópia-resumo, era um conjunto de ligações (um "caroço") que, para mim fazia sentido e me permitia reconstituir ideias associadas. Utilizado por outra pessoa não servia para nada, era um conjunto de associações pessoais, uma espécie de "gatilhadas" (triggers) sobre os meus neurónios. O resultado era uma grande eficácia a manipular ideias e não desaparecia. Ainda hoje, em cálculos matemáticos, me lembro e uso alguns "truques".

Para mim, usar "vademecuns" sobreviveu até aos dias de hoje, quer em áreas profissionais quer em hobbies. Nos baús das recordações tenho milhares de fichas guardadas desde "bisbilhotices" úteis sobre regras e regulamentos militares até notas e truques de bridge e poker, passando por ideias que chamava "lixo bom".

Tudo evolui e tudo se mantém. Dos livros passei às fichas e destas ao software. O método continua a ser a herança do Dr. Mora: 1- caçar o importante 2- estabelecer lógicas relacionais 3 - pensar e aplicar.

Em África, nas noites de poker, xadrez ou bridge também levava os meus vademecuns com informações relevantes, desde técnicas de jogo até características e hábitos dos jogadores habituais, tudo eram informações relevantes... e no fim havia sempre algo a acrescentar, era o prazer do Q.E.D.. 

O meu divertimento não era ganhar, até porque perdia muitas vezes, o meu divertimento era saborear as jogadas. Um apreciador de vinhos ou comidas não se embriaga nem empanturra, o objectivo é outro, não é acumular resultados é saborear o caminho.

Durante algum tempo joguei Reversi no computador (uma espécie de jogo do GO para crianças😆). 
O meu objectivo não era ganhar, era descobrir a lógica programada no software para jogar o jogo. 

Passei muitas horas agarrado ao vademecum a tirar informações e consegui em cada 10 jogos ganhar 8, tinha descoberto a lógica (Q.E.D.). 
Daí em diante o meu divertimento era, a meio do jogo, fazer asneiras propositadas, recuperar e ganhar.

Este hobby teve um final frustrante. Já adulto e licenciado, antes de desligar o computador costumava entrar numa rede de Reversi para jogar um bocado. Na identificação do jogador classificava-me como expert para ter um certo desafio com o oponente. 

Um dia, logo no primeiro jogo a meio dele já tinha perdido. Pelo chat disse isso e propus novo jogo. Ao fim de cinco jogos tudo se repetia e, perante a minha proposta para se começar de novo, o outro jogador propôs que se continuasse. Respondi que não merecia a pena porque, se ele não fizesse asneiras (e não fazia), eu já tinha perdido. Continuámos a jogar, eu a perder e a começar de novo... mas conversando pelo chat.

Descobri que ele estava no Japão, afinal o ele era uma ela, estudante, dizia-se um jogador regular-médio, pertencia a um clube de "GO e Reversi" da escola e tinha 12 anos. 
Fiquei de boca-aberta e nunca mais me considerei um expert em Reversi.

Pois é, jogar com adversários de programação fixa é uma coisa mas jogar com adversários de programação flexível é outra.

Considerei-me "estúpido" pois há muito tempo em África a jogar poker já tinha aprendido isso. 
Lá, ganhava dinheiro a jogadores de "programação fixa" (memória), mas perdia dinheiro com jogadores de "programação flexível" (pensar), apesar de serem os meus preferidos.

Na prática, o Dr. Mora do meu passado tinha razão. O método não era decorar soluções mas, 1º- caçar o importante; 2º- estabelecer lógicas relacionais; 3º- pensar e aplicar.

Segredo do estudar, fazer A+B

A == Caçar informações relevantes 
B == Estabelecer relações e extrair significados

Como problemas para treino deixo três questões, uma para cada uma das três áreas clássicas:

1ª - Relações funcionais (funciograma) entre as informações do problema, isto é, pesquisar a lógica;
2ª - Inter-acções dos elementos activos expressos no problema, isto é, pesquisar a "Lei da situação";
3ª - Inter-acções com o contexto e a fita do tempo do problema, isto é, pesquisar os processos.

Estes três problemas têm soluções simples e não exigem cálculos complicados. Não são testes nem concursos, são apenas "detonadores de pensares" (thinking triggers) para depois serem meditados e concluídos pelo próprio (debriefing).

Relembrando T. Edison, aqui vão os meus desejos que se divirtam:

"não há resultados falhados, só há resultados de sucesso a descobrir como não se faz ou como se faz" e, para isso, apenas temos que pensar sobre o que fizemos e escrever no nosso "Livro de Cábulas".

Inté (Adeus e Até Depois à maneira africana)
_____________________

1- Dinheiro (pensar a lógica)

Em duas carteiras existe:

- 1 nota  de  20 euros;
- 2 notas de 10 euros;
- 2 notas de   5 euros;

Dizer como as notas estão distribuídas para que uma carteira tenha o dobro do dinheiro da outra.

Ponto chave: valor e seu valor dobrado, considerando as notas não são divisíveis em 3 partes iguais.
Solução (clickar)

2 - Laboratório (pensar a situação)

Num laboratório há dois tubos de ensaio a aquecer até 80º C e dois frascos fechados, um com duas pastilhas A e outro com duas pastilhas B, visualmente iguais.

Aos 80º graus, o técnico tem dois minutos para abrir os frascos e deitar uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio. 

À hora certa, ele põe uma pastilha A na palma da mão, mas ao pôr uma pastilha B caem-lhe, ao mesmo tempo, as duas pastilhas B na palma da mão.

Não as distinguindo como fazer para, num minuto, pôr uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio.

 Ponto chave: identificar o identificável.
Solução (clickar)


3 - Ovo e galinha (pensar o processo)

Em termos lógicos decidir qual apareceu primeiro:

- foi o ovo que originou a galinha;
- foi a galinha que originou o ovo;

e a sua justificação lógica.

Ponto chave: como ambos nascem.

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